Tem uma frase na esfera da música que sempre me chamou atenção: “se você deixa o instrumento um dia, ele te deixa três”. É quase injusto, mas é verdadeiro — e talvez seja exatamente assim que funciona a governança e a liderança nas empresas.
A gente gosta de acreditar que competência se acumula, que uma boa reunião resolve, que um planejamento bem feito sustenta e que um offsite bem conduzido organiza o jogo. Mas não é bem assim. Governança não se acumula como conteúdo, ela se constrói como condicionamento, no contato constante com a realidade do negócio.
Uns dois ou três dias sem tocar seu instrumento não apaga o que você sabe, mas desorganiza o que estava se ajustando, tirando a fluidez do que parecia já dominado. A mão perde referência, o ouvido perde precisão, a sensibilidade muda e a confiança começa a vacilar. Na empresa, acontece a mesma coisa.
Uma semana sem conversa real, um mês sem alinhamento verdadeiro ou um trimestre sem presença efetiva não fazem nada colapsar de imediato. Mas fazem tudo, lentamente, começar a sair do lugar.
E existe uma outra máxima na música que é igualmente reveladora: “o músico que não presta atenção passa metade do tempo afinando o instrumento e a outra metade tocando desafinado”. No coletivo empresarial, isso fica ainda mais evidente.
Não adianta cada um estar tecnicamente preparado se ninguém estiver na mesma tonalidade. A música só acontece quando há escuta, ajuste fino e uma referência comum de harmonia.
Na empresa, é exatamente assim. Não basta cada sócio, executivo ou conselheiro estar “certo” individualmente. Se não há alinhamento, o que se produz não é resultado — é ruído. E, muitas vezes, um ruído sofisticado, cheio de argumentos bem construídos, mas completamente desalinhado na prática. É a experiência, somada à habilidade de escutar e ajustar, que faz a música soar afinada. E é isso que transforma um grupo de bons profissionais em um time que realmente funciona.
Disciplina não é fazer muito, é não sumir, não desaparecer — e é justamente essa presença contínua que sustenta qualquer evolução. Vinte minutos de prática instrumental conscientes todos os dias valem mais do que três horas concentradas uma única vez por semana.
Na governança, não é diferente.
Vale mais uma rotina simples, constante e viva, do que estruturas sofisticadas que aparecem apenas quando o problema já ficou grande demais. Porque, no fim, o negócio responde à presença. Não ao discurso, não ao organograma e muito menos ao plano no papel. O negócio responde à presença real de quem deveria estar conduzindo o jogo.
Tem empresa cheia de regra e vazia de prática, com processos bem desenhados, mas pouco vividos no dia a dia. Tem conselho que existe no papel, mas não na conversa. E tem sócio que acredita que governança é reunião marcada ou processo estruturado, quando, na verdade, é presença exercida. E, aos poucos, o instrumento começa a não responder como antes. As decisões ficam mais duras, as conversas mais rasas e os conflitos mais silenciosos.
Todo instrumento funciona assim — e empresa também. Quem evolui não é quem faz mais governança, mas quem pratica melhor e, principalmente, com regularidade.
A saída não é fazer mais reuniões. Também não é sofisticar a estrutura. A saída é criar presença com método. Menos eventos, mais ritmo. Menos intensidade pontual, mais constância intencional.
Estabeleça rituais simples, mas inegociáveis. Conversas curtas, mas reais. Acompanhamentos frequentes, mesmo que imperfeitos. E, principalmente, garanta que todos estejam na mesma tonalidade.
Alinhamento não é concordância cega. É referência comum. É escuta ativa. É ajuste contínuo. Governança não precisa começar grande. Ela precisa começar viva.
No fim, governar é muito mais parecido com tocar do que com planejar. Não é o modelo que sustenta o negócio, é a frequência — e a afinação — com que você aparece nele.
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