Existe algo curioso acontecendo com o nosso tempo, embora talvez “curioso” seja uma palavra gentil demais para definir uma época que transformou quase tudo em performance, inclusive aquilo que antes era apenas vida normal.
Hoje, parece que nada mais pode ser pequeno, simples ou silencioso. Um jantar não pode mais ser apenas um jantar, ele precisa ser uma experiência gastronômica. Uma caminhada não pode ser somente uma caminhada, mas precisa virar uma jornada de autoconhecimento. Um treino deixou de ser cuidado com o corpo para se transformar numa espécie de ritual épico de superação pessoal, quase como se cada pessoa estivesse permanentemente treinando para atravessar desertos, cruzar oceanos, escalar montanhas ou completar uma maratona invisível diante de uma plateia igualmente invisível. Parece que correr já não basta. Agora, tudo precisa ser uma prova extrema de resistência física, emocional e existencial.
Sem você perceber, até descansar ficou cansativo. É como se estivéssemos vivendo uma inflação emocional da existência, na qual tudo precisa ser intenso, extraordinário, profundo, transformador e instagramável, porque a simplicidade parece ter perdido prestígio e, aos poucos, também o seu lugar. O que predomina é uma espécie de nova ordem geradora de uma das grandes exaustões contemporâneas, onde a vida normal já não basta, parece irrelevante e já não merece atenção.
O problema é que, enquanto o mundo exige versões grandiosas de tudo, a vida real continua acontecendo em dimensões pequenas. A vida real acontece quando alguém aprende a ouvir um idoso repetir pela quinta vez a mesma história sem interrompê-lo apenas para demonstrar que já conhece o final. Quando alguém percebe que não precisa corrigir toda opinião equivocada numa mesa de jantar, num grupo de WhatsApp ou numa reunião de trabalho, porque paz, às vezes, vale mais do que razão. Quando uma pessoa consegue elogiar de maneira livre, espontânea e descompromissada, sem transformar reconhecimento em estratégia, disputa ou cálculo emocional.
A vida real acontece também quando alguém aprende a manter a calma enquanto o ambiente inteiro perde o controle, entendendo que nem toda provocação merece reação. A vida real acontece quando uma pessoa começa a se afastar silenciosamente de relações onde nunca foi valorizada, sem escândalo e sem necessidade de convencer ninguém sobre o próprio valor. Ou, ainda, quando alguém deixa de esconder emoções, fragilidades e medos apenas para sustentar uma imagem artificial de força permanente, porque entende, lá no fundo, que humanidade não diminui autoridade.
Acontece que, lentamente, fomos condicionados a desprezar essas pequenas vitórias, porque elas não geram espetáculo, não viralizam, não produzem frases de efeito, não monetizam e nem oferecem a falsa sensação de grandiosidade que o nosso tempo parece exigir o tempo inteiro. Elas cederam lugar para uma espécie de culto ao excesso, onde tudo precisa ser máximo: máxima produtividade, máxima consciência, máxima performance, máxima felicidade e máxima evolução pessoal. E, curiosamente, enquanto nunca se falou tanto sobre bem-estar, nunca se viu tanta gente emocionalmente cansada, que parece não saber a diferença importante que existe entre plenitude e exibição de plenitude.
Você já reparou que as pessoas estão cada vez mais ocupadas construindo versões interessantes de si mesmas e cada vez menos preocupadas em simplesmente viver? Há quase uma obrigação silenciosa de transformar qualquer experiência cotidiana em algo extraordinário. O trabalho não pode mais ser apenas digno, ele precisa ter propósito transcendental. O hobby precisa virar monetização. O descanso precisa gerar alta performance depois. Até o café parece precisar carregar algum significado filosófico para justificar sua existência.
E, aos poucos, a vida vai ficando estranhamente pequena, não pela ausência de possibilidades, mas porque a grandiosidade excessiva sufoca aquilo que sustenta a existência humana em sua forma mais genuína: os vínculos simples, as conversas sem utilidade prática, os silêncios confortáveis, os afetos discretos e aquela rara capacidade de existir sem precisar transformar tudo em espetáculo.
Nos tempos atuais, somos quase obrigados a constatar que existe algo profundamente sofisticado em quem envelhece aprendendo a simplificar a própria alma. Em quem descobre que abandonar o ego pode preservar relações. Em quem entende que alguns centavos não valem um constrangimento. E em quem percebe que não conhece tudo e que o mundo não repousa sobre seus ombros.
Nos dias de hoje, somos quase obrigados a constatar que existe também uma elegância silenciosa nas pessoas que amadurecem sem endurecer. Nas pessoas que aprendem a elogiar mais, a competir menos, a ouvir melhor, a exigir menos perfeição dos outros e de si mesmas, porque descobriram que a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos, mas principalmente na maneira como atravessamos os pequenos.
Entretanto, sem me obrigar a nada, prefiro manter o pensamento de que um dos maiores cuidados da nossa época possa ser justamente não permitir que o barulho do mundo atropele aquilo que existe de mais humano dentro de nós. Que a busca por performance nos roube a sensibilidade. Que a necessidade constante de parecer forte nos afaste das emoções. E que a obsessão por grandiosidade nos faça desprezar as pequenas alegrias, os vínculos simples, os gestos discretos e as conversas sinceras que, no final das contas, sustentam a vida muito mais do que qualquer espetáculo.
Há um risco silencioso em viver tempo demais tentando impressionar o mundo e pouco tempo tentando compreender a si mesmo. Amadurecer também é desenvolver consciência suficiente para perceber o que realmente importa, antes que a vida precise nos obrigar a perceber. Uma boa vida não é aquela que parece grandiosa aos olhos dos outros, mas aquela que consegue permanecer inteira e leve dentro de nós.
Saiba você que vida pessoal e profissional são impactadas por essa lógica de excesso, onde tudo precisa ser urgente, grandioso, extraordinário e permanentemente performático. Nessa tentativa constante de provar valor, as relações vão ficando mais tensas, as conversas mais superficiais e as pessoas mais cansadas. A tal maturidade profissional tem relação com aprender a equilibrar ambição e leveza e saber competir sem transformar tudo em disputa. Saber liderar sem precisar endurecer o tempo inteiro. Saber reconhecer, ouvir, respeitar limites e entender que consistência, equilíbrio e relações saudáveis sustentam trajetórias muito mais sólidas do que a necessidade permanente de parecer excepcional.
Correr 42 km é um feito extraordinário. Mas caminhar 2 km, correr 5 km ou simplesmente desacelerar do dia a dia, cuidando da própria saúde sem culpa alguma, mesmo que o percentual de gordura não esteja abaixo de dois dígitos, também deveria ser.
Acredite: uma das grandes distorções do nosso tempo foi fazer as pessoas acreditarem que apenas o grandioso merece valor, quando, na verdade, é a soma silenciosa das pequenas coisas que sustenta a vida.
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